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Mais tragédia que comédia – Tarcisio Patricio de Araujo

Tarcisio Patricio de Araujo[1]

O governo anterior: ausência de comando, confusão, política macroeconômica claudicante, presidente apartada do Parlamento. Economia em frangalhos. Razoável probabilidade de desastre maior, depois de mergulho em profunda recessão com inflação de dois dígitos, e temores de perdermos de vez o trem da estabilidade de preços. Seria o final dos parâmetros de alguma racionalidade macroeconômica trazida pela era do Real.

O impeachment, estou convencido, foi necessidade histórica. A saída. O constitucional vice-presidente, substituição natural, era o de que dispúnhamos. Temer foi um presente do PT.

De todo modo, inicia-se – aos solavancos – transição na economia e, embora a passos lentos, muda-se o panorama, destacando-se a expressiva redução inflacionária de quase 11% para 6,29% e perspectiva de algo inferior ao centro da meta (4,5%) já este ano. Algumas “reformas” microeconômicas, perspectiva de reforma da previdência. Leve mudança de expectativas, para melhor. Petrobrás recuperada.  E ajuda do front externo, com alguma recuperação de preços de commodities. E a Lava-Jato aparentemente incólume. Um cenário relativamente animador – frente ao que se anunciava no então moribundo Governo Dilma –, que motivou – por exemplo – um artigo otimista de FHC, no Estadão de domingo 05/fev (“Ainda há razões para sonhar”).

Mas, no front político, Temer insiste em mostrar não ser acaso ele levar para o Palácio a entourage que o cerca: políticos de uma manjada oligarquia, que certamente entende bem de processos e salamaleques que levaram a Lava Jato a ter sentido incontestável. Ele próprio um membro dileto dessa turma. No entanto, ele poderia pelo menos evitar escárnios como as nomeações de Geddel Vieira Lima (e hesitação na hora de expeli-lo) e de Moreira Franco e, agora, a ignomínia de indicar seu ministro da Justiça para o STF, depois de aparente costura prévia com membros desse egrégio Conselho. Suprema complacência? Rumamos para tragédia política e ética? Melhor seria se o presidente oferecesse insumos apenas para comédia, como o bizarro balanço das mãos e a platitude de algumas declarações à imprensa, nos poupando de mais desastres – além do propiciado por delírios macroeconômicos e desmandos de governança dos anos 2010-2015.

Meu pai costumava dizer: Fulano é tão salafrário que é capaz até de um dia cometer um ato honesto [desde que vantagem seja – completaria eu, agora]. Temer, nos surpreenda e cometa um ato digno!

Melhor do que isso, só povo na rua ajudando o país a alcançar melhor destino. Mas, infelizmente, (ainda) não somos uma Romênia…

[1] Professor do Departamento de Economia da UFPE.

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