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Ciro, o ilusionista – Sérgio C. Buarque

Publicada em 05/06/2018

SÉRGIO C. BUARQUE

A entrevista de Ciro Gomes no programa Roda Viva foi uma peça brilhante de ilusionismo. Ele promete revogar tudo que o atual governo Michel Temer conseguiu aprovar no Congresso Nacional e enfatiza que vai acabar com o teto dos gastos e substitui-lo por um enganador e impreciso “teto da dívida”, para agradar aos ouvidos sensíveis do eleitor e, principalmente, das viúvas do PT – Partido dos Trabalhadores e de Lula. 

Tenta enganar o eleitorado dizendo que o teto dos gastos definido na Emenda Constitucional 95/2016 congela por 20 anos os recursos alocados com saúde e educação. Ele sabe que não. A emenda define um limite para o total das despesas primárias e não, para cada um e todos os itens do orçamento. Os governos não estão obrigados a congelar os resursos alocados na saúde e educação; podem, até, elevá-los, desde que reduzam despesas em outros itens, na mesma proporção. A proposta de teto da dívida é um engodo e não deixa claro se o candidato está falando dos compromissos anuais (dívida vincendo), ou do total do endividamento do Estado. No primeiro caso, Ciro teria que reconhecer que o governo atual não está pagando nada (como se trabalhasse com o limite zero), simplesmente porque depois de realizadas as despesas primárias, ainda tem déficit, obrigando ao aumento do estoque de endividamento. Assim, se o limite anual definido por Ciro for maior que zero, o seu governo estaria sendo mais “generoso” com os credores do que o “governo golpista” de Temer. 

Se, ao contrário, trata-se de um teto do endividamento total, o governo estará obrigado a resgatar anualmente parte dos juros e do principal de títulos vincendo (não poderá rolar os compromissos anuais). Assim, a não ser que aposte em um desastroso calote, o governo de um eventual presidente Ciro Gomes teria que produzir todo ano um superávit primário suficiente para liquidar os compromissos da dívida. Ótimo. Mas teria que apertar as contas públicas já em frangalhos, ou seja, reduzir as despesas primárias (quais?). 

Com promessas enganadoras como esta, Ciro Gomes esquece a aritmética e maneja com habilidade as perigosas ferramentas do ilusionismo populista. A combinação contraditória de argumentos técnicos e manipulação demagógica talvez seja sua principal vantagem eleitoral. Mas constitui motivo suficiente para uma séria preocupação com a eventualidade da sua vitória no pleito presidencial de outubro. 

l Sérgio C. Buarque é economista

One Comment

  1. Editorial conciso e consistente com tarefa de difícil resposta do Ciro Gomes.

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