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Penso em comédia, vejo tragédia – Tarcisio Patricio de Araujo

Tarcisio Patricio de Araujo (1)

Meu artigo anterior nesta página data de 10/02/2017 (“Mais tragédia que comédia”). Seis meses, desde então! Não imaginava eu o que estava por vir. Esse, infelizmente, um traço dos tempos atuais: surpresa ruim, sempre. Impossível ver os tempos Temer como comédia. Bem mais fácil era ter piada pronta, como os ventos estocados (2) da então Presidente Dilma.

Na economia, tragédia cujas sementes estão nos dois últimos anos do segundo mandato do então Presidente Lula (2009-2010): a tal “nova matriz macroeconômica” (crescimento centrado no “consumo de massa”), como caminho de superação de problemas trazidos pela chamada crise hipotecária nos EUA – gestada no segundo semestre de 2007) –, o que veio a ser uma crise mundial.

Desde logo, aviso: continuo com a mesma convicção de quando, nos meus limites de espaço, trabalhei pelo impeachment de Dilma. Não tivesse isso tido lugar, estaríamos hoje com o pior: esse desemprego descomunal, ou ainda maior, inflação acima dos quase 11% de 2015 e PIB em queda – o pior dos mundos.

Todavia, dois importantes fatos econômicos (inflação em significava redução, desde 2016 – apenas 2,79% nos 12 meses encerrados em julho – e consequente redução da taxa básica de juros para menos de dois dígitos) estão sendo elididos pelo mau cheiro que exala da atual governança, temperada por um Parlamento em que predominam explícitos descaramento e desrespeito à sociedade. O escrachado processo de captura de apoio parlamentar para interromper investigação do presidente – por conta de fortes indícios de corrupção –, um completo escárnio.

Desnecessário explicitar o óbvio benefício de inflação baixa para a população, especialmente para camadas sociais de menor renda. Taxa SELIC declinante, por outra via, tem – em princípio – efeito sobre a redução do crescimento da dívida pública (taxa menor sobre o saldo devedor) e estimula o investimento. No entanto, esses dois potenciais benefícios não se realizam plenamente: o imbróglio político-policial afeta negativamente as expectativas, a retomada da economia vem se dando de forma muito mais lenta e as contas públicas permanecem em desordem, o que agrava a dívida. Ocorre que esse problema tem dimensão ampliada por renúncia de receita fiscal e gastos não controlados. Nesse campo, o governo desmoraliza a própria PEC do teto de gastos, ao reduzir dívidas de segmentos empresariais representados pela bancada ruralista, e antecipar gastos com emendas parlamentares, de modo a obter o referido apoio parlamentar. Tudo feito de forma escancarada, diante de perspectiva de persistente déficit primário até 2020 ou 2023, conforme estimativas do momento.  Reformas?… rumo ao beleléu.

A cereja desse indigesto bolo é o imoral, insultuoso e danoso fato – em termos pedagógicos – de Lula (sob investigação criminal e já condenado em primeira instância em um dos processos) posar de pré-candidato a presidente (com retórica populista), e buscar alimentar tal figura desafiando e agredindo a Justiça. Talvez até fazendo obstrução. E o governo Temer: cada vez mais fraco e medíocre. A sociedade, cansada.

 

  • Professor do Departamento de Economia da UFPE. Artigo publicado no Jornal do Commercio, página OPINIÕES, 23/08/2017.
  • Na versão publicada no JC, “encanados”.

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